Contradito

Existem sinceridades grosseiras

Sarcasmos cruéis

Amores opressores

Ódios libertadores

Perfeições dispensáveis

Imperfeições benvindas

Dias de chuva inspiradores

E de sol indesejados.

O próximo, por vezes,

Nos é distante

E o que está longe

Parece, na verdade,

Estar dentro de nós.

Há pessoas inesquecíveis

Esquecimentos insuportáveis

Mentiras honestas

Desejos públicos

E histórias íntimas

Guardadas a sete chaves.

Cara e coroa

Os dois lados

Da mesma moeda.

Por hoje

Hoje vesti-me com um belo vestido, tentando disfarçar o semblante cansado. O sorriso, ora doce, ora distante fazia as vezes de normalidade. Os olhos opacos queriam apenas encarar o horizonte à procura da minha alma. Acabei o dia com a maquiagem borrada.
Lembrei-me da citação: “Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho, é o despertar que nos mata”. Pensei na criança desejosa de tudo, feliz em se imaginar satisfeita em suas vontades pueris. Pensei também nas fantasias, nos devaneios de instantes em que o pensamento vai longe e alcança o invisível. O desejo trai a mente adulta em suas molequices sem juízo. Ele nos põe em reinos de quimeras quase impossíveis.
A vida nos pede mais. Embora seja certo que a mente reta acaba fatalmente a nos levar por caminhos sinuosos, os atalhos não podem ser o curso da história.
Tenho vivido dias de mente abarrotada de compromissos e de urgência de vazios silenciosos. Tenho dormido noites de sonhos abrasadores, de pernas entrelaçadas, sussurros ao pé do ouvido e corpos dançantes. Dia e noite em distância incalculável.
Sinto-me despejada de mim mesma, tocando em sentimentos ingratos. Vejo-me a procura de meus olhos no espelho, tentando decifrar minha mente labiríntica. Sinto-te cada dia mais longe, mas não há como estender a mão para um fôlego momentâneo. Hei de saber, de mim e de você, se as pedras são duras, se a água é cristalina, se o diamante é mais resistente do que o vidro. E se o tempo, esse senhor de soluções e desastres faz conosco gracejos ou perversas artes.

Pelo caminho

nuvens carregadas e vento soprando alheio ao que balança ao redor…
o impulso de seguir em frente e as lembranças que me fazem chorar baixinho…
a coisa do esquecer e não conseguir e, assim mesmo, não desistir…
a dor, as lágrimas, o espinho…
um tanto do insustentável…
recolher os cacos e os saltos dos sapatos quebrados no caminho…
recolher a tristeza…
hoje duas doses me bastariam:
uma de paciência
outra de vinho

Sem voz

Dormi tarde e acordei com sono. A comida da noite, ingerida  sem apetite em meio às balbúrdias de crianças e cachorros, não caiu bem. Indigesta, ficou revirando no estômago, tal como eu na cama de hóspedes da casa de meus pais. Dormir fora de casa sempre traz algum estranhamento. Dormir em casa traz os ruídos da rotina às preocupações, com ar de normalidade.
O passar das horas manteve o sono. A mente, longe do dia-a-dia usual trouxe um torpor infrequente e as palavras calaram-se por um dia inteiro. Elas – palavras – logo elas que já me tiraram da cama pelo volume de suas vozes. Elas que se manifestam em dias sem tempo e sem papel. Foram-se. Ficaram os sonhos, a confusão das imagens, o ruído da televisão. Fiquei sem voz (pela tosse e pelo adormecimento), flertando o vazio. Senti-me doente.
Tenho sentido, nesses dias, necessidade de pensar e uma vontade imensa de calar os pensamentos. Sinto saudades de coisas que foram e vejo-as se transformarem num filme que se passa muitas vezes na cabeça e parecem ser apenas isso: uma narrativa, uma história, fantasia apenas. Sinto-me botão que precisa medrar. Sinto-me entristecida pela consciência do que dificilmente será, consumida pela sensação de que a realidade é capaz de engolir as fantasias e certa de que é preciso perder os primeiros dentes, para que os permanentes possam vingar. Perder, muitas vezes, é o mote das histórias da vida.
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