Sem voz

Dormi tarde e acordei com sono. A comida da noite, ingerida  sem apetite em meio às balbúrdias de crianças e cachorros, não caiu bem. Indigesta, ficou revirando no estômago, tal como eu na cama de hóspedes da casa de meus pais. Dormir fora de casa sempre traz algum estranhamento. Dormir em casa traz os ruídos da rotina às preocupações, com ar de normalidade.
O passar das horas manteve o sono. A mente, longe do dia-a-dia usual trouxe um torpor infrequente e as palavras calaram-se por um dia inteiro. Elas – palavras – logo elas que já me tiraram da cama pelo volume de suas vozes. Elas que se manifestam em dias sem tempo e sem papel. Foram-se. Ficaram os sonhos, a confusão das imagens, o ruído da televisão. Fiquei sem voz (pela tosse e pelo adormecimento), flertando o vazio. Senti-me doente.
Tenho sentido, nesses dias, necessidade de pensar e uma vontade imensa de calar os pensamentos. Sinto saudades de coisas que foram e vejo-as se transformarem num filme que se passa muitas vezes na cabeça e parecem ser apenas isso: uma narrativa, uma história, fantasia apenas. Sinto-me botão que precisa medrar. Sinto-me entristecida pela consciência do que dificilmente será, consumida pela sensação de que a realidade é capaz de engolir as fantasias e certa de que é preciso perder os primeiros dentes, para que os permanentes possam vingar. Perder, muitas vezes, é o mote das histórias da vida.
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