Circunspeção

Outro dia

Amanhece claro

A doer os olhos.

Há cantorias pelos telhados

E pelas calhas, saltitantes.

Há o aroma do vento

A deixar seu perfume

Fresco sobre a pele.

E as folhas das árvores

A sacudir os pensamentos

Mais banais.

Há o azul infinito

Que convida

A deitar sobre o nada

Fechar os olhos

Frear os pensamentos

Calar as vozes

E esquecer por um longo momento

A cegueira alheia

E o desespero da sensatez.

Sinto-me perdoada

Sabe lá Deus do quê.

Momento de caos

Digo que não ligo

Que quero que se dane

Mas tenho arrebatamentos

De raiva

E ganas de olhares

Cortantes.

Quero repreender

Intransigente

Quero que se arrependa

E retorne rastejante!

Passada a raiva

Indiferença se impõe

Não quero nada

Nem uma nota

Nem fofoca

Nem um olhar ausente.

Fervo por dentro

Mantenho a linha

Por fora.

Implodo

Acabo-me

E encerra-se a história.

Não há volta

Não há solução

Morreu!

Se vivo está

Mantenha-se

Distante.

Inexato

Não me dou com números e códigos
Frios, calculados, exatos
Quase perfeitos.
Admira-me quem o faz.
Gosto mesmo das palavras, suas composições
Ideias, sentidos atribuídos
Entrelinhas
Desejos expressos e contidos.
Das máquinas, atrai-me a humana
Suas idiossincrasias, singularidades
Seus afetos, seus sentidos
Seus enganos, erros cometidos
Frustrações e imperfeições.
Não me dou com a exatidão.
Prefiro a possibilidade remota
A curva na estrada, a flutuação.